Immanuel Kant
Kant é, indubitavelmente, um dos grandes gênios da humanidade de todos os tempos. Sua vasta contribuição à história das idéias, do pensamento, não se circunscreve, tão-somente, ao campo filosófico, mas também a diversas outras áreas e matizes do conhecimento como a Lógica, por exemplo.
A seguir transcrevo mais um trecho do seu "Manual dos Cursos de Lógico Geral" que considero de uma profundidade lógica insuperável. Vejamos, se não:
"Se refletirmos sobre nossos conhecimentos , considerando as duas faculdades fundamentais, essencialmente diversas, das quais eles se originam, a sensibilidade e o intelecto (Sinnlichkeit, Verstandes), deparamos com a diferença entre intuições e conceitos. De fato, considerados desse ponto de vista, todos os nossos conhecimentos são ou intuições ou conceitos: as primeiras têm sua fonte na sensibilidade - faculdade das intuições; os segundos, no intelecto - faculdade dos conceitos. Esta é a distinção lógica entre intelecto e sensibilidade, segundo a qual a sensibilidade não fornece nada além de intuições e o intelecto nada além de conceitos. Mas ambas essas faculdades fundamentais podem, por outro lado, ser ainda consideradas e definidas de outra maneira - a sensibilidade como faculdade da receptividade (Receptivität) e o intelecto como faculdade da espontaneidade (Spontaneität). Só que essa maneira de definir não é lógica, mas metafísica. É também costume chamar a sensibilidade de faculdade inferior (niedere), e o intelecto, ao contrário, de superior (obere), porque a sensibilidade só dá ao pensamento o mero material (Stoff), ao passo que o intelecto dispõe (disponirt) sobre esse material e o submete a regras ou conceitos.
Sobre essa distinção entre conhecimentos intuitivos e conhecimentos discursivos ou entre intuições e conceitos, fundamenta-se a diversidade entre perfeição estética (ästhetischen Vollkommenheit) e perfeição lógica do conhecimento (logischen Vollkommenheit).
Um conhecimento pode ser perfeito segundo as leis da sensibilidade ou segundo as leis do intelecto. No primero caso, é esteticamente perfeito; no segundo, logicamente perfeito.
(...)
Em geral, entre a perfeição lógica e a perfeição estética do nosso conhecimento, subsiste sempre efetivamente um conflito que não pode ser de todo eliminado. O intelecto quer ser instruído (belehrt sein), a sensibilidade, animada (belebt sein). O primeiro deseja penetrar (Einsicht), à segunda apetece a preensão (Fasslichkeit). Se os conhecimentos têm de instruir, devem ser na mesma medida rigorosamente fundamentados; mas se têm, ao mesmo tempo, de entreter, então devem ser belos também. Se uma exposição é bela, mas superficial, só pode agradar à sensibilidade, não ao intelecto; se é, ao oposto, rigorosamente fundamentada, mas árida, só pode agradar ao intelecto, não à sensibilidade."


